Esta é uma homenagem a Tchó, professor, sindicalista, militante católico, ecologista, cujo texto foi escrito por seus familiares e amigas próximas: Maristela, Glória, Maria Antonina e Gemma Lanza e organizado pelo jornalista Caio Pacheco.
Ele nasceu Geraldo Francisco Barbosa. Na militância sindical, política, ecológica e partidária, ficou mundialmente conhecido como Tchó, o educador da fraternidade e igualdade.
Seus sonhos eram ações. Sonho por um mundo mais fraterno e mais feliz. Igualdade entre homens e mulheres. Compaixão pelo próximo. Para Tchó, esse é o “sonho” de Deus para a sua vida. Ele, o Pai, o criou para ser um Jardim em meio aos “desertos” impostos aos mais frágeis pelas mãos brutas do sistema de homens de almas adormecidas, duras.
A sabedoria e o comprometido com as causas humanitárias levaram Tchó a viver intensamente. Sua formação humana o fez encontrar uma grande mulher: Maria Camilotti, a gaúcha que fez de Minas Gerais a sua nova casa. Da comunhão de amor, viveram de mãos dadas e deram ao mundo filhos e netos marcados pela sensibilidade.
A trajetória de Tchó tem um marco. Aluno da Escola Profissional “Frederico Álvares”, mantida pela Central do Brasil – posteriormente Rede Ferroviária S/A – foi quando o jovem subiu ao palco da referida instituição com a banda de música tocando a música O CISNE BRANCO para receber meu diploma de CALDEIREIRO.
Melhor do que falar sobre Tchó é deixar sua voz ecoar entre nós.
“Tenho de render muitas homenagens. Primeiro a minha mãe, dona Cota carinhosa e paciente e que sabia quantas varadas deveria me dar por alguma estrepolia, o senhor Aurélio que sabia aproveitar os materiais que lhe chegavam às mãos. Um prego achado na rua tinha muito valor para ele. O Leó que me convidou para um evento da JOC-Juventude Operária Católica e Antônio Emanuel da Silva, o Toca que por sua vida e dedicação me mostrou os caminhos da J.O.C. (Juventude Operária Católica).”
Com o coração na Igreja Católica e a militância na então JOC, Tchó despontou como liderança.
Sinônimo da classe trabalhadora, Tchó representou, em vários momentos da vida, as dificuldades dos companheiros e das companheiras, lutou por direitos e reivindicações, e, claro, das lutas para conquistar tais direitos e oferecer a todos e a todas, sem distinção.
No coração e na mente de Tchó, nada poderia substituir a vida digna de trabalhadores e trabalhadoras. Esta era a sua causa. Novamente despontava em sua jornada terrena a mística do trabalho que constrói vida plena e abundante para todos e todas.
Lembrava sempre a frase de Dom Pedro Casaldáliga.
“No ventre de Maria, Jesus se tornou homem, na carpintaria de José, Jesus se torna classe trabalhadora.”
Ele próprio preferia ser conhecido e chamado por Tchó, apelido que ganhou na sua primeira participação na JOC (Juventude Operária Católica), movimento que o formou para uma vivência cristã, autêntica, de entrega total aos seus iguais; que fez dele um homem a serviço do outro cada segundo de um dia inteiro. Sua missão: pensar, agir e transformar o mundo em que vivemos.
Com esse espírito de luta, dia após dia dava aos demais o seu testemunho de vida.
A JOC era a extensão de sua casa, o compromisso com a causa dos mais pobres, a opção preferencial pelos trabalhadores e trabalhadoras. Pois foram nessas condições que Tchó foi liberado da Juventude Operária Católica e deixou o emprego na Rede Ferroviária Federal e viajou pelo mundo neste serviço.
Conquistou inúmeros amigos que conservou até o fim; adquiriu conhecimentos. O sobrenome o revelava: Francisco, repleto de significados históricos a favor do bem. Logo, Tchó soube recolher com sabedoria toda a experiência positiva que as viagens e o trabalho lhe proporcionaram. Aditou-as à sua bagagem acadêmica para reproduzi-las em sala de aula e
fora dela, na militância e na convivência social, política e familiar. Era admirável exemplo!
Com as mãos e mente, dedicou-se ao mais alto lugar que um ser humano pode chegar, ou seja, ser professor. Tchó tornou-se professor de Técnicas Agrícolas na rede pública estadual, lecionou Química na rede privada de ensino, mas ia bem mais longe, eis que ao ministrar as matérias agregava-lhes conhecimentos gerais, ensinando viver a vida.
Tchó foi membro fundador da ACO (Ação Católica Operária), uma JOC para adultos. Atuou como Coordenador e Conselheiro Nacional, Coordenador e Assistente Espiritual em nível regional. Participou da fundação da UTE (União dos Trabalhadores em Educação), que hoje é o Sind-UTE, da
subsede de Sete Lagoas, da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e do PT.
Filho da coragem, Tchó militou em todas as linhas, da base até a cúpula,
sempre oferecendo o seu melhor em tempo integral. Forjado na liberdade, tornou-se ícone da esquerda e do campo progressista em Sete Lagoas, candidatando-se a vereador por Sete Lagoas pelo Partido dos Trabalhadores. Para fazer campanha eleitoral, sua e dos companheiros, usava a criatividade e seus talentos porque o dinheiro era minguado. Sua casa se transformava numa espécie de comitê eleitoral, com a permissão e participação ativa de Maria, esposa e companheira de todas as horas e circunstâncias, ela também uma grande lutadora.
Ao lado da eterna companheira, Tchó aceitou outro desafio que o fez escrever capítulo significativa da História da República Federativa do Brasil: a Assembleia Nacional Constituinte. Era a década de 1980.
Foi um programa do governo. Eram representantes de 23 municípios da região pela Delegacia Regional de Ensino (DRE). Foram realizadas visitas em cada município, culminando em um encontro estadual que aconteceu durante sete dias em Belo Horizonte na Fundação João Pinheiro, com a presença de deputados federais e estaduais da região e no último dia do governador. Lideranças do estado todo apareceram.
Foi apresentado o relatório final, com propostas para a educação à Assembleia Nacional Constituinte. Tiveram palestras, debates, com apresentação de artistas de Minas Gerais, com o encerramento no Palácio das Artes.
Missão cumprida. As propostas populares dos profissionais da Educação chegaram aos constituintes, cuja responsabilidade seria escrever a primeira Constituição da República Federativa do Brasil após o fim da ditadura militar de 1964. Com a Constituição Cidadã, iniciava-se a redemocratização do Brasil. De Sete Lagoas despontaram dois grandes nomes na condição de representantes dos municípios: Geraldo Francisco Barbosa (Tchó) e Gemma G. M. Lanza.
Ferrenho defensor da Classe Trabalhadora e da categoria a que pertencia, ofertava tudo que tinha, não media esforços na luta por um mundo mais justo, mais humano, na ótica do Carpinteiro de Nazaré, Jesus Cristo.
Foi profeta e semeador. Ele sabia que "debaixo do céu
há tempo para tudo e momento certo para cada coisa: tempo para nascer e tempo para morrer...".
Chegada a sua hora, partiu serenamente, deixando um legado
perene e muita saudade.
TCHÓ
As origens de Geraldo Francisco Barbosa
A seguir, declarações inéditas do homem nascido, batizado, crismado e casado com Maria Camilotti, ela a mensageira do amor e da paz.
“Meu pai era vaqueiro na Fazenda do Paredão. Era de uma família pobre. A grande riqueza era o amor familiar. Eram dois irmãos e cinco irmãs. Eu puxei a fila depois vem: Maria Aparecida, a tia Lila, Maria Lúcia, a tia Luca, Vilma Sebastiana, a tia Visa, Maria das Graças, a tia Dadá, Guilherme José, o tio Gui (f), Marcos Aurélio, o tio Marquinho e Heloisa Helena, a tia Nega.”
De todos os irmãos e irmãs, Tchó revela quem era a mais próxima dele: “a tia Lila, Maria Aparecida.”
“Na Fazenda do Paredão e os vizinhos eram os “agregados” e os pequenos agricultores, lembro-me de uma família cujo sobrenome era PEIXE que tinha uma pequena horta”, escreveu Tchó.
E a infância? “Gostava das flores (dálias) do nosso quintal e das borboletas que apareciam. Brincava muito mas assumia alguns serviços da casa. Uma vez tive de fazer quiabo e depois de picar fui lavar e quanto mais lavava mais babava. Fui à casa de D. Maria, nossa vizinha, e ele me falou que tinha de lavar antes de picar. A sorte é que os quiabos eram colhidos em casa mesmo”, recorda.
Os primeiros passos nos estudos ocorreram noGrupo Escolar “Dr.Arthur Bernardes”, em Sete Lagoas. Bom aluno? Sim, ao que tudo parece. Recorda Tchó que uma colega do terceiro ano falou com uma de suas tias, vizinha dela, que eu ia “tomar bomba.” O resultado foi o oposto. Tchó passou e sua colega, como era de praxe dizer naquele tempo, tomou bomba.
As notas do pequeno Geraldo Francisco Barbosa eram sempre na média, conforme pode ser constatado tanto em seus registros quanto na escola primária em que estudou.
Em casa, o hábito da leitura não era uma constante. De acordo com o próprio Tchó, o pai era ferroviário e nem sempre estava em casa e era de “pouca leitura”. A mãe gostava muito de ler, mas os afazeres da casa não lhe davam tempo. “No entanto, eu me lembro, dela me ensinando a ler. De noite, com a luz da lamparina eu lhe soletrava, por exemplo: B-O-R-B-O-L-E-T-A, e ela dizia, borboleta.” Boas recordações!
“Uma história e depois outra” era o livro preferido do pequeno estudante. O professor preferido? No primário foi a Dona Lúcia Victória Avelar, na Escola Profissional o instrutor José Afonso e no Ensino Médio o Professor Jean Baptiste Marius Rousset.
Lembranças de uma época. Sobre a mãe, ela era carinhosa. Era tão carinhosa que sabia limitar a quantidade e o tipo das varadas quando necessárias. Ela passava mal quando tinha de usar “este instrumento de correção”. Foi a primeira filha dos avós de Tchó a sobreviver. Os três primeiros irmãos morreram ainda bem pequenos. Nasceu no povoado, hoje cidade, de Pompéu. Foi batizada na Freguesia de Martinho Campos, na Igreja de Nossa Senhora da Abadia.
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